A Origem da Maçonaria – A Transição entre o Ofício e a Especulação

Introdução

A investigação sobre a origem da Maçonaria constitui uma das tarefas mais complexas para o historiador da Arte Real, pois exige a separação entre a lenda romântica e a realidade documental. Segundo Colin Dyer, em sua obra clássica, a Maçonaria moderna é o resultado de uma transição lenta e orgânica que ocorreu nas Ilhas Britânicas, onde os ofícios de construção medieval foram gradualmente “espiritualizados”. Este processo não foi um evento abrupto, mas sim uma evolução que transformou canteiros de obras em Lojas de instrução moral.

 Historicamente, a Maçonaria Operativa era composta por artesãos qualificados que detinham o monopólio da construção de catedrais e castelos. Com o declínio do estilo gótico e as mudanças sociais na Grã-Bretanha, estas guildas começaram a admitir homens que não eram profissionais da construção. Dyer explica que estes membros eram chamados de “aceitos”, cidadãos de destaque interessados em filosofia e ciência, que viam nas ferramentas dos pedreiros — como o esquadro e o compasso — símbolos perfeitos para o aperfeiçoamento humano. 

A origem da Maçonaria também está intrinsecamente ligada ao conceito de ser “livre”. Rizzardo da Camino destaca que a Maçonaria surgiu de um movimento de reação contra sistemas sociais caóticos e opressores, onde o homem buscava valorizar-se perante si mesmo e seus pares. No contexto das guildas, ser um “maçom livre” significava possuir a licença para negociar dentro dos limites administrativos de uma cidade e ter o direito de exercer a profissão sob o controle de sua guilda, isento de certas taxas feudais.

A Geometria desempenha um papel central nesta narrativa. Documentos como o Manuscrito Cooke (c. 1400) já enfatizavam que a Maçonaria e a Geometria eram sinônimas, sendo esta última a “ciência causadora de tudo”. Para os maçons especulativos, a geometria não era apenas uma ferramenta de cálculo, mas a representação da ordem divina no universo. Assim, a origem da Maçonaria especulativa é o momento em que a construção material cede lugar à construção do “Templo Interior” da alma.

Rizzardo da Camino observa que a Maçonaria não teve uma origem espontânea, mas evoluiu de um “Movimento” primitivo que buscava a igualdade e a liberdade. Este Movimento encontrou eco em diversas civilizações, mas foi na Inglaterra do século XVIII, com a fundação da primeira Grande Loja em 1717, que a Instituição ganhou sua forma organizacional definitiva. No entanto, documentos como o Manuscrito Regius (c. 1390) provam que o cerne moral e simbólico já existia séculos antes desta data oficial.

Em suma, a origem da Maçonaria deve ser entendida como a fusão entre a técnica operativa dos antigos mestres de obra e o pensamento iluminista da “Idade da Razão”. O maçom moderno, ao desbastar sua pedra bruta, continua o trabalho iniciado por aqueles que viram na arquitetura física o espelho da arquitetura divina. A sobrevivência da Ordem ao longo dos séculos atesta a eficácia deste sistema de moralidade, que permanece tão atual hoje quanto nos canteiros de York ou Londres no século XIV.

 

Referências Bibliográficas (Padrão ABNT)

CAMINO, Rizzardo da. Simbolismo do Primeiro Grau: Aprendiz. São Paulo: Madras, 2001.

DYER, Colin. O Simbolismo na Maçonaria. Tradução de Sérgio Cernea. São Paulo: Madras, 2006.

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