José Bonifácio e o Grande Oriente do Brasil de 1822: Nascimento, Crise e Fechamento

José Bonifácio e o Grande Oriente do Brasil de 1822: Nascimento, Crise e Fechamento

Entre junho e outubro de 1822, em pouco mais de quatro meses, o Grande Oriente do Brasil nasceu, iniciou o príncipe regente, o elegeu Grão-Mestre e foi fechado por ele. No centro desse ciclo estava José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, primeiro Grão-Mestre da Maçonaria brasileira e, ao mesmo tempo, o homem que a viu como ameaça ao governo que dirigia. É uma história curta, intensa e decisiva para entender por que a Maçonaria brasileira tem a forma que tem.

Este artigo apresenta a fundação do Grande Oriente, o papel de José Bonifácio, a rivalidade com Gonçalves Ledo, a iniciação de D. Pedro e o fechamento de outubro de 1822, com a leitura crítica que parte da historiografia maçônica faz do Patriarca.

A fundação: 17 de junho de 1822

Em 1822 havia no Rio de Janeiro Lojas ligadas a potências estrangeiras e um movimento de independência que precisava de organização. Em 17 de junho, três Lojas da capital, Comércio e Artes, União e Tranquilidade e Esperança de Niterói, reuniram-se e fundaram o Grande Oriente do Brasil. José Bonifácio, ministro do Reino e principal conselheiro do príncipe D. Pedro, foi eleito Grão-Mestre. Joaquim Gonçalves Ledo, jornalista e líder do grupo liberal, tornou-se Primeiro Grande Vigilante, e o cônego Januário da Cunha Barbosa, Grande Orador.

Dois projetos de independência

A Maçonaria de 1822 abrigava duas correntes. A de José Bonifácio queria uma independência conduzida de cima, com monarquia forte e poder concentrado no príncipe e em seu gabinete. A de Gonçalves Ledo queria uma monarquia constitucional com assembleia soberana, imprensa livre e poder partilhado. As duas concordavam na separação de Portugal e divergiam em quase tudo o mais. A Loja foi o palco em que essa disputa se travou, e o Grande Oriente, o prêmio.

A iniciação de D. Pedro

Em 2 de agosto de 1822, o príncipe regente D. Pedro foi iniciado na Loja Comércio e Artes, com o nome simbólico de Guatimozim, o último imperador asteca. Em 5 de agosto passou a Companheiro e Mestre. Em 4 de outubro, três semanas depois do Grito do Ipiranga, foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente, substituindo José Bonifácio. A iniciação foi obra do grupo de Ledo, que via no príncipe maçom a garantia de uma monarquia constitucional. Bonifácio, ao contrário, viu nela a perda de controle sobre o príncipe e sobre a Maçonaria.

O fechamento: 21 de outubro de 1822

Dezessete dias depois de eleito Grão-Mestre, D. Pedro, aconselhado por José Bonifácio, mandou suspender os trabalhos do Grande Oriente. O decreto de 21 de outubro fechou as Lojas; Gonçalves Ledo fugiu para Buenos Aires, Januário da Cunha Barbosa foi deportado e outros liberais foram presos. A Maçonaria brasileira ficou oficialmente fechada até 1831, quando, com a abdicação de D. Pedro, foi reorganizada, e o próprio José Bonifácio, de volta do exílio, reassumiu a direção do Grande Oriente reerguido.

A leitura crítica

Parte dos historiadores maçônicos, como Kennyo Ismail, trata José Bonifácio com dureza: o primeiro Grão-Mestre que fez de tudo para fechar a Ordem, e que dez anos depois foi trazido de volta para reabri-la. Outros veem nele um estadista que, num momento de risco real de guerra civil, escolheu a estabilidade do novo Estado acima da instituição. As duas leituras concordam no essencial: a Maçonaria brasileira nasceu dentro da política, e não fora dela, e desde o berço conviveu com a tensão entre autoridade e liberdade que atravessaria o Império.

Por que isso importa para o Aprendiz e o Companheiro

O obreiro brasileiro deve saber que o Grande Oriente que hoje conhece tem uma certidão de nascimento datada de 17 de junho de 1822 e uma primeira crise datada de 21 de outubro do mesmo ano. Saber quem foi José Bonifácio, o que ele fez e por que o fez ensina a olhar para a Ordem sem idealização: uma fraternidade feita de homens com projetos, que às vezes colidem. É a mesma lição, em versão brasileira, de Bolívar, que também foi maçom e também fechou Lojas quando governou. Sobre o contexto mais amplo, veja Maçonaria e história moderna.

Perguntas frequentes

Quem foi o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil? José Bonifácio de Andrada e Silva, eleito na fundação do Grande Oriente, em 17 de junho de 1822, no Rio de Janeiro.

D. Pedro I foi maçom? Sim. Foi iniciado em 2 de agosto de 1822 na Loja Comércio e Artes, com o nome de Guatimozim, e eleito Grão-Mestre em 4 de outubro. Em 21 de outubro, porém, mandou suspender os trabalhos do Grande Oriente.

Por que o Grande Oriente foi fechado em 1822? Pela disputa entre o grupo de José Bonifácio, que queria poder concentrado no príncipe, e o de Gonçalves Ledo, liberal e constitucionalista. Bonifácio convenceu D. Pedro de que a Maçonaria era foco de conspiração. A Ordem só foi reorganizada em 1831.

Conclusão

José Bonifácio fundou a Maçonaria brasileira e a fechou no mesmo ano; dez anos depois, reabriu-a. Sua trajetória resume o nascimento político da Ordem no Brasil, entre o projeto do Patriarca e o dos liberais de Ledo. Para o Aprendiz e o Companheiro, é a origem concreta do Grande Oriente e um convite a conhecer a própria história sem mitos. Outros nomes e datas estão no Dicionário Maçônico.

Referências bibliográficas

  • ISMAIL, Kennyo. A(s) Maçonaria(s) Paulista(s) (artigo).
  • CASTELLANI, José. A Maçonaria e sua Influência no Brasil. Londrina: A Trolha, 1994.
  • BARATA, Alexandre Mansur. Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência do Brasil (1790–1822). Juiz de Fora: UFJF, 2006.
  • MACKEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria.

Fonte de referência histórica: Maçonaria (Wikipédia).

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