As Constituições de Anderson, publicadas em Londres em 1723, são o documento que transformou uma fraternidade de ofício em instituição moderna. Antes delas, a Maçonaria vivia de usos, tradições orais e manuscritos dispersos; depois delas, passou a ter um texto impresso capaz de dizer quem é maçom, o que se espera de um obreiro e como uma Loja se governa. É por isso que se costuma chamá-las de certidão de nascimento da Maçonaria especulativa.
O que são as Constituições de Anderson
Trata-se do livro intitulado The Constitutions of the Free-Masons, impresso em Londres em 1723 por ordem da Grande Loja constituída poucos anos antes. Não é um ritual: é um texto de história e de direito. Reúne uma narrativa das origens do ofício, as Obrigações que definem a conduta do maçom e os Regulamentos Gerais que organizam a vida administrativa das Lojas. Curiosamente, o nome de James Anderson não aparece na folha de rosto — sua autoria é declarada apenas no fim do volume, na aprovação que acompanha a obra.
Como nasceram: Londres, 1717–1723
A tradição situa em 1717 a reunião de quatro Lojas londrinas que deu origem à primeira Grande Loja — data que historiadores modernos discutem, sugerindo que a organização possa ter se consolidado alguns anos depois. O que é documentalmente firme é o passo seguinte: em setembro de 1721, a Grande Loja encarregou James Anderson, pastor presbiteriano escocês e maçom atuante, de compilar e ordenar os antigos regulamentos góticos do ofício.
O trabalho de Anderson não partiu do nada. Ele tinha à mão os chamados manuscritos góticos, que circulavam entre as corporações de construtores, e os Regulamentos Gerais que George Payne havia reunido em 1720. Sua tarefa foi de compilação, harmonização e redação — e também, é preciso dizer, de invenção narrativa. A obra saiu do prelo em 1723 com dedicatória assinada por John Theophilus Desaguliers ao Duque de Montagu, então Grão-Mestre.
A estrutura do livro
As Constituições de Anderson organizam-se em quatro partes bem distintas:
- A história tradicional — uma genealogia do ofício que remonta a Adão e atravessa a construção do Templo de Salomão, o Egito, a Grécia e Roma até chegar à Inglaterra. É narrativa mítica, não historiografia, e deve ser lida como tal.
- As Obrigações do Maçom (The Charges of a Free-Mason) — seis obrigações que tratam de Deus e da religião, da autoridade civil, das Lojas, do comportamento entre irmãos e da conduta no mundo profano.
- Os Regulamentos Gerais — trinta e nove artigos sobre a administração das Lojas, a eleição de oficiais, as reuniões e as prerrogativas da Grande Loja.
- As canções — quatro cantos maçônicos, lembrete de que a sociabilidade fazia parte essencial da vida das Lojas do século XVIII.
A Primeira Obrigação e a tolerância
A passagem mais influente das Constituições de Anderson é a primeira Obrigação, “Concerning God and Religion”. Ela determina que o maçom obedeça à lei moral e que, em matéria de fé, a Ordem se limite àquela religião em que todos os homens concordam, deixando a cada um suas opiniões particulares. Exige-se do candidato que seja homem bom e verdadeiro, de honra e honestidade, qualquer que seja a confissão que professe.
O alcance disso, na Europa recém-saída de um século de guerras religiosas, é difícil de exagerar. Foi essa formulação que permitiu a católicos, anglicanos, presbiterianos, luteranos e judeus sentarem-se na mesma Loja — e é dela que descende a exigência, ainda viva, de que o obreiro seja livre e de bons costumes. A cláusula também explica por que a discussão de política partidária e de religião permanece fora do Templo até hoje.
Das Constituições de Anderson à lei maçônica de hoje
Quase todo o direito maçônico posterior conversa com esse texto. As noções de Loja regular, de jurisdição de uma Potência, de prerrogativa do Grão-Mestre e de requisitos para admissão têm ali sua primeira formulação impressa. Quando se discute regularidade maçônica e landmarks, é às Constituições de 1723 que os argumentos costumam voltar.
Elas também consolidam o desenho de três graus que se tornaria universal, matéria tratada em graus maçônicos, e registram por escrito a virada que levou a Ordem do canteiro de obras ao trabalho simbólico — a transição analisada em Maçonaria especulativa.
A edição de 1738 e a reimpressão de Franklin
Anderson publicou em 1738 uma segunda edição, o New Book of Constitutions, bastante alterada: ampliou a parte histórica, reescreveu trechos das Obrigações e introduziu a expressão que designa os maçons como filhos de Noé. Muitos estudiosos consideram essa edição menos confiável do que a de 1723, e é o texto de 1723 que permanece como referência.
Do outro lado do Atlântico, Benjamin Franklin reimprimiu a obra na Filadélfia em 1734 — o primeiro livro maçônico impresso na América. O detalhe diz muito sobre a velocidade com que aquele pequeno volume londrino se tornou a gramática comum de uma Ordem que se espalhava pelo mundo.
Perguntas frequentes sobre as Constituições de Anderson
Quem escreveu as Constituições de Anderson? James Anderson, pastor presbiteriano escocês e maçom, incumbido pela Grande Loja de Londres em setembro de 1721 de compilar os antigos regulamentos do ofício. Seu nome não consta da folha de rosto da edição de 1723, aparecendo apenas na aprovação ao fim do volume.
As Constituições de Anderson são um ritual? Não. São um documento histórico e jurídico: história tradicional, Obrigações e Regulamentos Gerais. Nada nelas descreve a prática ritualística, que pertence à instrução recebida no interior da Loja.
Por que 1723 é uma data tão importante? Porque marca a passagem da tradição oral ao texto impresso. A partir dali a Maçonaria passa a ter uma lei escrita, publicada e comum, condição para que Lojas de países diferentes se reconhecessem entre si.
As Constituições de 1723 ainda valem? Não como norma vigente — cada Potência tem hoje sua própria Constituição. Valem como fonte: é nelas que se buscam os princípios e a linguagem que as legislações maçônicas posteriores herdaram.
Conclusão
As Constituições de Anderson não fundaram a Maçonaria: encontraram uma tradição antiga e deram-lhe forma escrita, num momento em que a Europa precisava de espaços onde homens de crenças distintas pudessem trabalhar juntos. Ler o texto de 1723 é ver a Ordem no instante em que decide o que quer ser — e reconhecer, na primeira Obrigação, uma das mais generosas formulações de tolerância que o século XVIII produziu.
Referências bibliográficas
- ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. Londres, 1723.
- ANDERSON, James. The New Book of Constitutions. Londres, 1738.
- JACOB, Margaret C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe.
- MACKEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria.
- ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria.
