Poucos personagens são tão citados nas Lojas da América Latina quanto Simón Bolívar, o Libertador. E poucos têm uma relação tão cheia de claros e escuros com a Ordem: há registros de sua iniciação e de sua presença em Lojas, há um decreto seu proibindo sociedades secretas, e há uma quantidade enorme de lendas que o transformam ora em herói maçônico, ora em renegado. Este artigo separa o que os documentos mostram do que a tradição acrescentou.
A iniciação em Cádiz
Bolívar nasceu em Caracas em 1783, filho de uma das famílias mais ricas da Venezuela colonial. Em 1799 viajou à Espanha para completar a educação, e foi em Cádiz, por volta de 1803, que teria sido iniciado maçom, segundo a tradição mais aceita, numa Loja de influência francesa. A documentação direta é escassa, o que é comum para Lojas espanholas da época, perseguidas pela Inquisição. O que se sabe com mais segurança vem do período seguinte.
Paris e a Loja de Saint-Alexandre d’Écosse
Em 1804 e 1805 Bolívar viveu em Paris, no auge do Império de Napoleão, e frequentou a Loja Saint-Alexandre d’Écosse, sob o Grande Oriente da França, onde há registro de sua elevação a Mestre. Foi nesse ambiente, entre maçons, cientistas e liberais, que amadureceu as ideias de independência que juraria em Roma, no Monte Sacro, em 1805, diante de seu mestre Simón Rodríguez. Ao voltar à América, levava consigo a experiência das Lojas parisienses e a rede de contatos que elas ofereciam.
Lojas, guerra e independência
Durante as guerras de independência, muitos oficiais dos exércitos patriotas eram maçons, e a Maçonaria serviu como espaço de articulação política em várias cidades. Bolívar foi recebido com honras em Lojas de Lima em 1824 e é registrado como membro da Loja Orden y Libertad, na capital peruana. A tradição liga seu nome também às Lojas Lautaro, sociedade patriótica de inspiração maçônica fundada por Francisco de Miranda, mas a filiação direta de Bolívar a elas não tem prova documental sólida.
O decreto de 1828
Em 8 de novembro de 1828, como presidente da Grã-Colômbia e após uma tentativa de assassinato, Bolívar assinou um decreto proibindo “todas as sociedades ou confrarias secretas, qualquer que seja sua denominação”. As Lojas foram fechadas. O motivo declarado era a segurança pública: as sociedades secretas serviam de abrigo à conspiração. Não é um repúdio à Maçonaria em si, mas é a prova de que Bolívar, no poder, viu as Lojas com desconfiança. Morreu dois anos depois, em 1830, sem revogar o decreto.
O que é lenda
- “Bolívar foi grau 33”: não há registro. Os altos graus escoceses só se organizariam na região décadas depois.
- “A independência foi um plano maçônico”: muitos líderes eram maçons e usaram as Lojas para se articular, mas a independência foi um movimento político amplo, não uma decisão de Loja.
- “Bolívar renegou a Maçonaria”: o decreto de 1828 proibiu sociedades secretas por razões de segurança; não há declaração dele contra os princípios da Ordem.
Por que isso importa para o Aprendiz e o Companheiro
O caso de Bolívar é uma lição de método: a Ordem gosta de heróis, mas o Aprendiz deve aprender a distinguir registro de tradição, como ensina a escola autêntica da Quatuor Coronati. Bolívar foi maçom, frequentou Lojas em três países e, no poder, as proibiu. Contar apenas a primeira metade é lenda; contar a história inteira é história. E há uma lição de fundo: a Maçonaria forma homens livres, e homens livres decidem sozinhos, mesmo contra a Loja.
Perguntas frequentes
Simón Bolívar foi maçom? Sim. Bolívar teria sido iniciado em Cádiz por volta de 1803, foi elevado a Mestre na Loja Saint-Alexandre d’Écosse, em Paris, entre 1804 e 1805, e é registrado como membro da Loja Orden y Libertad, em Lima, em 1824.
Por que Bolívar proibiu a Maçonaria? Em 8 de novembro de 1828, após um atentado contra ele, proibiu todas as sociedades secretas na Grã-Colômbia por razões de segurança pública. O decreto não ataca os princípios da Ordem.
Bolívar pertenceu à Loja Lautaro? É tradição, não fato documentado. As Lojas Lautaro eram sociedades patrióticas de inspiração maçônica, e a filiação direta de Bolívar a elas não tem prova sólida.
Conclusão
Bolívar maçom é um fato; Bolívar herói maçônico é uma escolha da tradição; Bolívar inimigo da Ordem é um exagero. Entre os três, o Aprendiz e o Companheiro devem ficar com o que os documentos sustentam: um homem formado nas Lojas da Europa que, ao governar, colocou a segurança do Estado acima delas. Outros nomes da história da Ordem estão no Dicionário Maçônico.
Referências bibliográficas
- LYNCH, John. Simón Bolívar: A Life. New Haven: Yale University Press, 2006.
- BOLÍVAR, Simón. Decreto de 8 de novembro de 1828 sobre sociedades secretas. Bogotá, 1828.
- FERRER BENIMELI, José Antonio. Masonería e Independencia de América. Madrid, 1990.
- MACKEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria.
Fonte de referência histórica: Maçonaria (Wikipédia).
