Introdução: O Primeiro Filtro da Iniciação
Ao pesquisar sobre os requisitos para se tornar um maçom, qualquer interessado encontrará invariavelmente a expressão: “Livre e de Bons Costumes”. Mas, em um mundo onde a liberdade é frequentemente confundida com libertinagem e a moralidade é vista como algo relativo, o que essa frase realmente exige de um candidato?
Muito além de uma simples formalidade ritualística, ser Livre e de Bons Costumes na Maçonaria é o alicerce sobre o qual se constrói todo o edifício moral do iniciado. Neste artigo, vamos mergulhar nas definições clássicas e nas implicações práticas deste binômio fundamental.
O Que Significa Ser “Livre”?
Historicamente, o termo remete à Maçonaria Operativa, onde apenas homens que não estivessem sob regime de servidão poderiam ser aceitos como aprendizes de pedreiro. No entanto, na Maçonaria Especulativa contemporânea, a “liberdade” ganhou uma dimensão intelectual e espiritual.
Ser Livre e de Bons Costumes na Maçonaria significa, antes de tudo, ter liberdade de pensamento. Um homem livre é aquele que:
Não é escravo de seus vícios: O domínio das paixões é a primeira prova de liberdade real.
Não é cativo de preconceitos: Ele possui a mente aberta para a razão e para a ciência, não se deixando levar por dogmatismos cegos ou ódios sociais.
Possui independência econômica e social: Ele deve ser capaz de prover o sustento de sua família e cumprir seus deveres sociais sem que o ingresso na Ordem prejudique seu equilíbrio financeiro.
Segundo o livro 100 Instruções de Aprendiz, o maçom é livre porque “só se curva pela razão”. Essa autonomia intelectual é o que permite ao iniciado buscar a verdade sem as amarras impostas por terceiros.
O Significado de “Bons Costumes”
Se a liberdade trata da esfera interna e intelectual, os “Bons Costumes” referem-se à conduta externa e social do indivíduo. Ter bons costumes não é apenas ser “uma pessoa legal”, mas sim possuir uma ética inabalável.
Na perspectiva maçônica, o homem de bons costumes é aquele que “pensa antes de agir”. Suas ações são guiadas pela prudência e pela virtude. De acordo com as instruções de Raymundo D’Elia Junior, essa condição manifesta-se em atitudes cotidianas, tais como:
Dominar a língua: Dizer sempre menos do que se pensa e evitar palavras amargas ou destrutivas.
Honrar promessas: Refletir profundamente antes de assumir um compromisso e, uma vez feito, cumpri-lo custe o que custar.
Benevolência e Ternura: Demonstrar interesse real pelo bem-estar do próximo, da família e dos irmãos.
Humildade: Evitar o uso excessivo do “Eu” e agir com moderação em todas as ocasiões.
O Binômio como Orientação de Vida
A expressão Livre e de Bons Costumes na Maçonaria é descrita como a “melhor orientação de vida”. Quando um candidato afirma possuir essas qualidades, ele está declarando que possui o substrato moral necessário para ser “desbastado”.
Não se busca a perfeição absoluta — pois a Pedra Bruta ainda está por ser trabalhada — mas sim a disposição sincera para o aperfeiçoamento. Sem a base de ser um homem livre (capaz de mudar) e de bons costumes (querendo o bem), o trabalho maçônico não encontraria solo fértil para florescer.
A Importância do Testemunho Alheio
Um detalhe curioso e profundo da tradição maçônica é que o título de “Livre e de Bons Costumes” não é algo que o candidato reivindica para si mesmo durante a iniciação. São os membros da Loja que, após rigorosa sindicância e observação, declaram que o recipiendário possui tais qualidades.
Isso reforça a ideia de que a nossa reputação no mundo profano é o nosso primeiro cartão de visitas na Ordem. A Maçonaria não reforma homens maus; ela busca homens bons para torná-los ainda melhores.
Conclusão: Um Compromisso com a Evolução
Ser Livre e de Bons Costumes na Maçonaria é um estado de consciência. É compreender que a liberdade traz responsabilidade e que a moralidade é a ferramenta para construir uma sociedade mais justa. Para o maçom, manter essas qualidades é um exercício diário de vigilância contra as tentações do ego e do orgulho.
Ao cultivar a liberdade de pensamento e a retidão de caráter, o indivíduo não apenas se torna um membro digno da Ordem, mas um farol de integridade para a sociedade em que vive.
Referência Bibliográfica (ABNT)
D’ELIA JUNIOR, Raymundo. Maçonaria: 100 Instruções de Aprendiz. São Paulo: Madras, 2007.