O Trabalho dos Companheiros: Da Lapidação Pessoal à Edificação da Humanidade

Trabalho dos Companheiros — simbolismo na Maçonaria

Introdução

No universo maçônico, o conceito de “trabalho” transcende em muito o sentido comum de labuta material. Ele é, antes de tudo, uma ferramenta de transformação interior e um compromisso com o bem-estar da humanidade. No Grau de Companheiro, o Trabalho dos Companheiros é elevado a uma condição de exaltação, tornando-se a essência filosófica desse estágio da jornada maçônica.

Como expressa um belo trecho da “Oração dos Moços”, de Ruy Barbosa, citado em instruções maçônicas: “Oração e Trabalho são os recursos mais poderosos à criação moral… Quem quer, pois, que trabalhe, está em Oração ao Senhor”. Isso nos lembra que o Trabalho dos Companheiros é uma forma de conexão com o Divino, um meio de edificar a si mesmo e o mundo.

Do Aprendizado Pessoal à Contribuição Coletiva

O Grau de Companheiro é dedicado à “exaltação do trabalho” em seu sentido mais amplo. Não importa o tipo de trabalho, mas sim que ele seja executado com base nos princípios da dignidade, ética e alegria, visando o crescimento espiritual. A Maçonaria, ao contrário de visões deturpadas do passado que associavam o trabalho a um “castigo”, o enaltece como um “sábio ensinamento” e um “grande, bom e adequado desafio”.

Se o Aprendiz se concentrava principalmente na lapidação de sua Pedra Bruta e no aperfeiçoamento espiritual individual, o Trabalho dos Companheiros orienta o Obreiro a um retorno à materialidade, mas com uma nova perspectiva. Ele é solicitado a reassentar os pés na terra, voltando seu interesse e curiosidade para os “aspectos importantes da Humanidade, das Ciências Humanas/Exatas e das Belas Artes”. Isso se deve ao fato de que um ser humano completo não deve desenvolver apenas suas aptidões espirituais, transformando-se em um “místico por excelência”, mas integrar essa espiritualidade ao conjunto das capacidades humanas, equilibrando espírito e razão.

As Ferramentas do Companheiro no Trabalho Diário

Para realizar o Trabalho dos Companheiros, o Obreiro é dotado de novos instrumentos, que complementam o Malho e Cinzel do Aprendiz:

 
  • Alavanca: Símbolo do poder e da multiplicação das forças, capaz de transpor obstáculos.
  • Régua: Representa o método, a retidão e a Lei, guiando o Maçom para a “retidão da conduta”.
  • Compasso: Ensina a medida, a prudência e a circunspecção, permitindo traçar os limites da razão e da moral.
  • Esquadro: Símbolo da conduta irrepreensível, da retidão e da justiça, essencial para “regulamentar as ações pela Lei Moral”.
  • Prumo e Nível: Instrumentos de precisão que garantem a verticalidade e horizontalidade, simbolizando a retidão nos atos e o equilíbrio na vida.
     

Essas ferramentas são utilizadas para polir a Pedra Bruta, que agora se torna Pedra Polida ou Cúbica, preparando-a para a edificação do Templo Interior e, consequentemente, contribuindo para o “edifício social”. A Trolha, presente no Painel Simbólico de alguns Ritos, simboliza a indulgência e o “amor fraterno”, a arte de unir as Pedras Cúbicas com a argamassa da irmandade.

A Fraternidade e o Serviço à Humanidade

O Trabalho dos Companheiros é, por excelência, um trabalho coletivo. O Companheiro, ao invés de atuar sozinho como o Aprendiz, passa a trabalhar em conjunto com “dois, três ou um grupo”, o que possibilita o real exercício da fraternidade na plenitude. Essa característica amplia a visão espiritualizada da vida em cada Companheiro.

A Maçonaria propaga “ações benéficas” que devem ser levadas a efeito, especialmente quando um Irmão se encontra em necessidade, prestando auxílio em casos de indigência, perigo, erro, sofrimento ou aflição. O Trabalho dos Companheiros torna o Maçom um virtuoso, não para a sua própria felicidade egoísta, mas porque a virtude, objetivo de seu trabalho, proporciona paz de espírito e satisfação.

O zelo maçônico se traduz em um incomparável amor à Humanidade e à verdade, sendo o ardor com que o Integrante deve se entregar ao trabalho na Oficina e no mundo. A Trabalho dos Companheiros é a essência da Maçonaria, compondo sua doutrina, filosofia e história.

Edificando o Templo Social

O Trabalho dos Companheiros envolve a construção de “Templos à virtude” e a edificação de “masmorras ao vício”. Levantar Templos à virtude é um dos mais importantes e belos objetivos maçônicos, digno do empenho do Companheiro. Isso significa erguer um edifício pedra-por-pedra, adorná-lo e consagrá-lo ao G∴A∴D∴U∴, tornando-o um Templo de virtuosidade.

O Maçom, em sua jornada, deve se entregar ao Trabalho dos Companheiros e à edificação contínua de seu Templo Interior, superando paixões e submetendo vontades. Esse processo de construção é um processo sociológico que busca exteriorizar as conquistas espirituais, transmitindo-as à sociedade como argamassa e materiais.

Em síntese, o Trabalho dos Companheiros é um convite ao Obreiro para uma atuação ativa e consciente, tanto na lapidação de si mesmo quanto na contribuição para a edificação de uma sociedade mais justa, fraterna e virtuosa, honrando os princípios mais elevados da Maçonaria.


Referências Bibliográficas:

D’ELIA JUNIOR, Raymundo. Maçonaria: 50 Instruções de Companheiro. São Paulo: Madras, 2019.

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