A Royal Society, fundada em Londres em 1660, é a mais antiga academia científica em atividade contínua no mundo. A Grande Loja de Londres nasceu a poucos quilômetros dali, em 1717. Não é coincidência que, nas primeiras décadas, tantos homens tenham pertencido às duas: Elias Ashmole, Desaguliers, Martin Folkes, William Stukeley e dezenas de outros. A Maçonaria especulativa cresceu no mesmo ambiente intelectual que consagrou Newton, e isso explica por que a Ordem fala tanto de geometria, de ordem natural e de um Grande Arquiteto.
Este artigo mostra quem eram os maçons da Royal Society, o que as duas instituições tinham em comum e o que a ciência newtoniana deixou nos graus de Aprendiz e Companheiro.
Uma academia e uma fraternidade
A Royal Society reunia, sob proteção real, homens dedicados à “filosofia natural”: observar, medir, experimentar, discutir sem apelar à autoridade. Seu lema, Nullius in verba, “nas palavras de ninguém”, resumia o método. A Grande Loja, por sua vez, reunia homens de religiões e profissões diferentes sob um compromisso moral comum, com a geometria como símbolo central. Uma investigava o mundo; a outra, o homem. As duas partilhavam a convicção iluminista de que razão e virtude podem ser cultivadas em conjunto.
Os maçons da Royal Society
- Elias Ashmole (1617–1692): membro fundador da Royal Society em 1660 e autor do registro mais antigo de uma iniciação não operativa, em 1646. Ver Elias Ashmole.
- John Theophilus Desaguliers (1683–1744): membro da Royal Society desde 1714, assistente de Newton, terceiro Grão-Mestre e organizador da Grande Loja. Ver Desaguliers.
- Martin Folkes (1690–1754): Deputado Grão-Mestre em 1724 e, depois, presidente da Royal Society entre 1741 e 1752, sucedendo a Hans Sloane. É o caso mais claro de dirigente das duas instituições.
- William Stukeley (1687–1765): médico, antiquário e pioneiro da arqueologia de Stonehenge, membro da Royal Society e maçom desde 1721; registrou em seu diário que entrou na Ordem “suspeitando que fosse o resto dos mistérios dos antigos”.
- O Duque de Montagu: membro da Royal Society e primeiro Grão-Mestre nobre, em 1721. Ver Duque de Montagu.
Estudos de historiadores como Margaret Jacob mostram que, nas décadas de 1720 e 1730, uma fração expressiva dos oficiais da Grande Loja era ou viria a ser membro da Royal Society. Newton, por sua vez, nunca foi maçom: a ligação passa por seus discípulos, não por ele.
O que a ciência deixou nos graus
A influência aparece com clareza no vocabulário e nos símbolos dos primeiros graus:
- A geometria como ciência-mãe: o segundo grau apresenta a geometria como base de todas as artes, exatamente como a tradição do Manuscrito Regius e como a física de Newton, que via o universo como obra geométrica.
- O Grande Arquiteto do Universo: a expressão, já usada por teólogos, ganhou na Maçonaria o sentido de um Deus que constrói com medida e lei, compatível com a ciência e com religiões diversas.
- As sete artes liberais: o Companheiro é convidado a estudar aritmética, geometria, astronomia e música, o currículo do saber medieval renovado pela ciência moderna. Ver as sete artes liberais.
- O dever de estudar: “fazer avanços diários em conhecimento” é uma frase de Loja, mas é também o programa da Royal Society.
Um limite necessário
A Royal Society não fundou a Maçonaria, nem a Maçonaria era um braço secreto da ciência. Eram instituições distintas, com fins distintos, que atraíram o mesmo tipo de homem num mesmo momento histórico. A relação é de vizinhança intelectual, não de identidade.
Por que isso importa para o Aprendiz e o Companheiro
Quando o Aprendiz ouve que a Maçonaria é uma escola e que o Companheiro deve estudar as ciências, está herdando o espírito da Royal Society filtrado pela Grande Loja de 1720. A Ordem não pede ao obreiro que acredite; pede que observe, meça e compreenda, primeiro o mundo, depois a si mesmo. Saber de onde vem esse convite ajuda a levá-lo a sério.
Perguntas frequentes
Qual a relação entre a Royal Society e a Maçonaria? Nas primeiras décadas da Grande Loja de Londres, muitos oficiais eram membros da Royal Society, como Desaguliers, Martin Folkes e William Stukeley. As duas instituições partilharam pessoas e o espírito iluminista, não uma organização comum.
Isaac Newton foi maçom? Não há registro de que Newton tenha sido maçom. A ligação entre sua ciência e a Maçonaria passa por discípulos como Desaguliers, que foi Grão-Mestre.
Quem foi Martin Folkes? Deputado Grão-Mestre em 1724 e presidente da Royal Society de 1741 a 1752, o exemplo mais claro de dirigente das duas instituições.
Conclusão
A Royal Society e a Grande Loja foram vizinhas de época, de cidade e de membros. Dessa vizinhança a Maçonaria herdou a geometria como símbolo, o estudo como dever e a ideia de um universo construído com ordem. Para o Aprendiz e o Companheiro, é a explicação de por que a Loja parece, tantas vezes, uma sala de aula. Outros nomes estão no Dicionário Maçônico.
Referências bibliográficas
- JACOB, Margaret C. The Radical Enlightenment: Pantheists, Freemasons and Republicans. Londres: Allen & Unwin, 1981.
- JACOB, Margaret C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics in Eighteenth-Century Europe. Oxford, 1991.
- CARPENTER, Audrey T. John Theophilus Desaguliers. Londres: Continuum, 2011.
- MACKEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria.
Fonte de referência histórica: Maçonaria (Wikipédia).
