“Fui feito franco-maçom em Warrington, Lancashire.” A frase, anotada num diário em 16 de outubro de 1646, é o registro mais antigo que se conhece da iniciação de um homem que não era pedreiro. Quem escreveu foi Elias Ashmole, antiquário, astrólogo, colecionador e fundador do museu que leva seu nome em Oxford. Setenta anos antes da primeira Grande Loja, sua anotação prova que a Maçonaria já aceitava, no século XVII, membros que nada tinham a ver com a construção.
Este artigo apresenta quem foi Ashmole, o que o diário dele revela, por que esse registro é decisivo para a história da Ordem e o que ele significa para o Aprendiz e o Companheiro.
Quem foi Elias Ashmole
Elias Ashmole nasceu em Lichfield, Inglaterra, em 1617. Formou-se em direito, lutou do lado realista na Guerra Civil inglesa e, com a Restauração, ocupou cargos na corte de Carlos II. Foi membro fundador da Royal Society em 1661, dedicou-se à alquimia, à astrologia e à história das ordens de cavalaria, e reuniu uma coleção imensa de curiosidades naturais e antiguidades, doada à Universidade de Oxford em 1677. Dela nasceu o Ashmolean Museum, o primeiro museu público da Grã-Bretanha.
O diário de 1646
Ashmole era meticuloso com datas, hábito de astrólogo. Por isso anotou com hora e lugar: às 16h30 de 16 de outubro de 1646, em Warrington, foi “feito franco-maçom” numa reunião de que participaram seu sogro, o coronel Henry Mainwaring, e outros homens da região. Os nomes registrados são de proprietários rurais e cavalheiros, não de construtores. É a primeira prova documental de uma Loja composta por membros não operativos, o que os historiadores chamam de Maçonaria de aceitação.
Trinta e seis anos depois, em março de 1682, ele registrou uma segunda anotação: foi convocado a uma reunião da Companhia dos Pedreiros de Londres, no Masons’ Hall, onde novos membros foram admitidos. Ashmole se descreve como “o mais antigo companheiro” presente, o que indica que a fraternidade já contava com cavalheiros ao lado dos artesãos de ofício.
Por que o registro é decisivo
Até o diário de Ashmole, as evidências de uma Maçonaria não operativa na Inglaterra eram indiretas. A anotação de 1646 muda o quadro:
- Data segura: prova que a admissão de não construtores já acontecia em meados do século XVII, muito antes de 1717.
- Perfil dos membros: homens instruídos, ligados à corte, à ciência e às letras, o público que faria a Maçonaria especulativa crescer.
- Continuidade: a segunda anotação, de 1682, mostra que a convivência entre operativos e aceitos durou décadas antes de a Grande Loja organizá-la.
É por isso que a escola autêntica, nascida na Quatuor Coronati, trata 1646 como marco: não como origem da Ordem, mas como a primeira data comprovada da transição.
O que Ashmole não disse
O diário não descreve a cerimônia. Ashmole registra o fato, o lugar, a hora e os presentes, e nada mais. Essa discrição, num homem que escrevia sobre tudo, sugere que já então a reserva sobre o conteúdo dos trabalhos fazia parte do compromisso assumido.
Legado para o Aprendiz e o Companheiro
Elias Ashmole é o retrato do maçom que a Ordem passaria a atrair: curioso, estudioso, interessado em ciência, história e símbolos. Sua iniciação mostra que, já no século XVII, a Loja era um lugar onde homens de formação diversa se encontravam em pé de igualdade com artesãos. O Aprendiz que hoje senta na Coluna do Norte ao lado de um irmão de profissão completamente diferente está repetindo o que aconteceu em Warrington em 1646.
Perguntas frequentes
Quem foi Elias Ashmole? Elias Ashmole (1617–1692) foi antiquário, astrólogo, membro fundador da Royal Society e fundador do Ashmolean Museum, em Oxford. Seu diário traz o registro mais antigo conhecido da iniciação de um maçom não operativo.
Quando Elias Ashmole foi iniciado na Maçonaria? Em 16 de outubro de 1646, em Warrington, Lancashire, conforme anotação de próprio punho em seu diário.
Por que a iniciação de Ashmole é importante? Porque prova que a Maçonaria já admitia cavalheiros não construtores em meados do século XVII, setenta anos antes da primeira Grande Loja, documentando a transição da Maçonaria operativa para a especulativa.
Conclusão
Uma linha num diário mudou a forma como a Maçonaria conta a própria história. Elias Ashmole não fundou nada na Ordem, mas deixou a prova de que ela já existia como fraternidade de homens livres muito antes de ter sede, constituição ou Grão-Mestre. Para o Aprendiz e o Companheiro, é um lembrete de que a Maçonaria vive nos registros e nas condutas, não apenas nas instituições. Outros nomes e datas estão no Dicionário Maçônico.
Referências bibliográficas
- JOSTEN, C. H. (ed.). Elias Ashmole (1617–1692): His Autobiographical and Historical Notes. Oxford: Clarendon Press, 1966.
- GOULD, Robert Freke. The History of Freemasonry. Londres, 1882–1887.
- PAULINO, Fábio Mendes. Ritual de Emulação: A Maçonaria Inglesa no Brasil. Sorocaba, 2010.
- MACKEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria.
Fonte de referência histórica: Maçonaria (Wikipédia).
