Cargos em Loja no REAA: Funções, Jóias e Simbolismo Completo

Cargos em Loja no REAA: Guia Completo com Funções, Jóias e Simbolismo

Uma Loja Maçônica no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) é muito mais do que uma reunião de homens de boa vontade. É uma organização cuidadosamente estruturada, onde cada cargo possui função específica, jóia distintiva, posição determinada no Templo e significado simbólico próprio. Compreender essa estrutura é fundamental para que cada Maçom entenda seu papel no conjunto da Oficina e valorize a sabedoria contida na organização da Loja.

Neste artigo, apresentamos um guia completo dos cargos em Loja no REAA, da presidência ao cargo mais silencioso, passando por cada um dos oficiais que tornam possível o trabalho maçônico.

Venerável Mestre (VM): A Sabedoria que Preside

O Venerável Mestre é o cargo mais elevado da Loja. Sua jóia distintiva é o Esquadro — símbolo da retidão e da justiça —, indicando que o VM deve ser o Maçom mais reto e mais justo da Oficina que preside. A coluneta em seu altar é a Jônica, que simboliza a Sabedoria — evocando a estátua de Minerva dos romanos ou Palas Atena dos gregos.

Suas responsabilidades são vastas: dirigir a Loja com equilíbrio, serenidade e senso de justiça; nomear membros da administração e comissões; iniciar e conferir Graus; presidir eleições e escrutínios; despachar o expediente com a Secretaria; autorizar despesas; e apresentar relatórios de sua gestão.

Mais do que administrador, o VM é o símbolo vivo da Loja. Como costuma dizer a tradição: “Pelo Venerável se conhece a Loja”. Sua presença, sua condução e seu caráter determinam, em grande medida, a atmosfera de trabalho, a harmonia entre os irmãos e o sucesso ou fracasso da Oficina.

Primeiro Vigilante: A Força que Sustenta

A jóia do Primeiro Vigilante é o Nível — símbolo da igualdade social, base do Direito Natural. Seu altar recebe a Coluna Dórica, que simboliza a Força, representada pela estátua de Hércules.

O Primeiro Vigilante substitui o Venerável Mestre em seus impedimentos, dirige a Coluna do Norte, transmite as ordens do Venerável aos obreiros e ao Segundo Vigilante. É ainda sua função solicitar ao VM a palavra para os irmãos de sua Coluna e pedir aumento de salário — ou seja, elevação de grau — para os Aprendizes.

Segundo Vigilante: A Beleza que Inspira

A jóia do Segundo Vigilante é o Prumo ou Perpendicular — emblema da busca pela Verdade e, aliado ao Esquadro, instrumento da construção perfeita. Em seu altar encontra-se a Coluna Coríntia, a Coluna da Beleza, próxima à estátua de Vênus (romana) ou Afrodite (grega).

O Segundo Vigilante dirige a Coluna do Sul, substitui o VM nos impedimentos simultâneos deste e do Primeiro Vigilante. Também solicita a palavra para os irmãos de sua Coluna e pede elevação de grau para os Companheiros.

A tríade formada pelo VM e pelos dois Vigilantes representa os três pilares fundamentais da Maçonaria: Sabedoria, Força e Beleza — a sabedoria para conceber, a força para sustentar e a beleza para adornar toda obra humana e maçônica.

Orador: A Consciência da Loja

A jóia do Orador é um Livro Aberto — símbolo de que nada esconderá de duvidoso e de que é o Guardião da Lei. O Orador é, literalmente, a consciência jurídica da Loja.

Senta-se no Oriente, à direita do VM. Conhece e interpreta todas as Leis Maçônicas: Constituição, Regulamentos, Landmarks, Usos e Costumes. Impede que o VM cometa erros ou excessos no exercício de suas funções. Em caso de infração grave, instrui o respectivo processo disciplinar — exercendo a função análoga ao Ministério Público.

Vale notar: o Venerável Mestre não está obrigado a seguir as conclusões do Orador, podendo decidir de forma diferente. Essa independência é deliberada e simboliza o equilíbrio entre lei e autoridade.

Secretário: A Memória que Preserva

As duas penas cruzadas são a jóia do Secretário, indicando que ele assegura a tradição da Ordem e da Oficina pelo registro fiel de todos os acontecimentos. Senta-se no Oriente, à esquerda do VM.

O Secretário é o historiador vivo da Loja. Os registros que ele produz serão, no futuro, a única fonte confiável sobre o que aconteceu. Uma Secretaria negligente produz uma história incompleta ou distorcida — e uma história distorcida priva as gerações futuras do conhecimento verdadeiro.

Tesoureiro: O Guardião dos Metais

As duas chaves cruzadas simbolizam que o Tesoureiro é o depositário e administrador dos recursos da Loja. Tem assento na Coluna do Norte.

Cabe ao Tesoureiro zelar pela arrecadação das contribuições dos irmãos, pelo pagamento das obrigações com a Obediência e pela saúde financeira da Oficina. Sem uma tesouraria bem gerida, a Loja não consegue cumprir seus compromissos maçônicos nem suas obrigações profanas — e uma Loja inadimplente perde credibilidade e regularidade.

Chanceler: O Guarda-Selos

A jóia do Chanceler é um Timbre ou Chancela, simbolizando sua responsabilidade sobre todos os documentos e selos da Loja. Mantém o livro de registro de presença dos obreiros e visitantes e é responsável pela guarda dos Livros Negro e Amarelo — instrumentos fundamentais do processo de candidatura e avaliação de novos membros.

Mestre de Cerimônias: O Conhecedor dos Caminhos

Sua jóia é a Régua — símbolo do aperfeiçoamento moral, do método e da retidão. O Mestre de Cerimônias é o responsável por todo o cerimonial da Loja, zelando para que os trabalhos sejam conduzidos estritamente de acordo com o Ritual.

Deve conhecer profundamente os sinais, toques e palavras de todos os graus. É o único oficial que pode circular livremente na Loja sem autorização prévia do VM — pois é o mensageiro por excelência. Suas atribuições incluem: distribuir insígnias e aventais antes das sessões; organizar fileiras; fazer exortação antes da entrada no Templo; acompanhar autoridades; e declarar que a Loja está composta no Grau.

Um detalhe importante: o Mestre de Cerimônias aprende o seu ofício fazendo — executando, errando, corrigindo. Não há outro caminho. O cargo se aprende na função.

Hospitaleiro: A Caridade em Ação

A pequena sacola é a jóia do Hospitaleiro — símbolo do peregrino e do pedinte, representando a caridade ativa. É responsável pela circulação do Tronco de Beneficência e por toda a parte assistencial da Loja: auxílios a irmãos necessitados, visitas a enfermos, providências em caso de falecimento de um irmão.

Sua missão principal, porém, se cumpre fora da Loja — no contato direto com os necessitados, na discreta ação fraternal que não busca visibilidade, mas o bem genuíno.

Diáconos: Os Mensageiros

Os dois Diáconos — Primeiro e Segundo — têm como jóia a pomba: o Primeiro com uma pomba inscrita em triângulo, o Segundo com pomba em voo livre. O nome vem do grego diákonos, “aquele que serve”.

O Primeiro Diácono posiciona-se à direita do VM para conectá-lo ao Primeiro Vigilante; o Segundo Diácono coloca-se à direita do Primeiro Vigilante para transmitir ordens ao Segundo Vigilante. Entre as funções destacadas está a abertura e fechamento do Painel da Loja e a formação do pálio na abertura e fechamento do Livro da Lei.

Expertos: Os Guias dos Iniciandos

A jóia dos Expertos é um Punhal — símbolo não de traição, mas de fortaleza e guarda. São irmãos experientes, conhecedores da ritualística, responsáveis por guiar os profanos durante a Iniciação e por substituir irmãos ausentes em seus cargos.

Guarda do Templo e Cobridor Externo

O Guarda do Templo tem como jóia duas Espadas Cruzadas, ensinando a defesa contra maus pensamentos. Posiciona-se à direita da entrada, sendo o único autorizado a abrir e fechar a porta do Templo. Na Maçonaria Inglesa, a importância desse cargo é tamanha que as Lojas elegem apenas o Venerável, o Tesoureiro e o Cobridor.

O Cobridor Externo tem como jóia o Alfanje, para ceifar forças negativas. Guarnece o lado externo do Templo, garantindo que os trabalhos não sejam perturbados por profanos.

Outros Cargos: Arte, Memória e Abundância

Porta-Bandeira e Porta-Espada cuidam dos símbolos nacionais e da Espada Flamejante em ocasiões cerimoniais. O Arquiteto, com sua jóia de Trolha, é responsável pela ornamentação do Templo antes das sessões. O Mestre de Harmonia, com a Lira, cuida da música que prepara o ambiente espiritual das sessões. O Mestre de Banquetes, com a Cornucópia, organiza os ágapes fraternais. O Bibliotecário, com livro e pena, guarda e promove o acervo de cultura maçônica — combatendo o perigoso hábito de estudar apenas até o fim do interstício.

Conclusão: A Loja como Organismo Vivo

Uma Loja Maçônica bem estruturada é um organismo vivo, onde cada cargo é um órgão essencial. Quando todos funcionam com consciência e dedicação, a Oficina prospera, os irmãos crescem e a Maçonaria cumpre seu propósito elevado. Conhecer o próprio cargo — e respeitar o do irmão — é o primeiro passo para uma Loja verdadeiramente Justa e Perfeita.


Referências Bibliográficas (ABNT)

CARGOS EM LOJA NO REAA. Texto de instrução maçônica. Publicação interna, s.d.

D’ELIA JUNIOR, Raymundo. Maçonaria: 100 Instruções de Aprendiz. São Paulo: Madras Editora, 2008.

MACKEY, Albert G. O Simbolismo da Maçonaria. Tradução brasileira.

GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Constituição e Regulamento Geral. Brasília: GOB, s.d.

CASTELLANI, José. Organização Maçônica Brasileira. São Paulo: Editora Traço, 1990.

Leia outros Post's

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja produtos selecionados abaixo:

Compre pelos nossos links, desta forma estará nos ajudando a manter o site.