Nenhum símbolo é mais central para a tradição maçônica do que o Templo de Salomão. Desde os primeiros rituais da Maçonaria Especulativa, no século XVIII, até os trabalhos contemporâneos das lojas em todo o mundo, o Templo de Jerusalém ocupa o lugar de metáfora fundamental — o arquétipo de toda construção, seja ela de pedra ou de espírito.
O Templo Histórico
O Primeiro Templo de Jerusalém, segundo as narrativas bíblicas dos livros de Reis e Crônicas, foi construído pelo rei Salomão por volta do século X a.C. Seu pai, o rei Davi, havia desejado edificar uma casa para o Senhor, mas coube a Salomão concluir o projeto. A construção durou sete anos e envolveu artífices de todo o Oriente Próximo.
O texto bíblico descreve a obra com riqueza de detalhes: suas dimensões precisas, os materiais utilizados — cedros do Líbano, ouro de Ofir, pedras cuidadosamente talhadas —, os ornamentos e os objetos sagrados que o adornavam. O Templo era, na concepção da época, a morada terrena da divindade — o ponto de contato entre o humano e o sagrado.
Destruído pelo rei babilônio Nabucodonosor em 586 a.C., o Templo foi posteriormente reconstruído (Segundo Templo) e, por fim, demolido pelos romanos em 70 d.C. Desde então, o Monte do Templo permanece um dos lugares mais sagrados e disputados da história humana.
Hiram Abife: O Grande Mestre Arquiteto
Para a tradição maçônica, tão importante quanto o Templo em si é a figura de seu principal arquiteto: Hiram Abife (ou Hiram Abiff). Mencionado brevemente nas escrituras como um hábil artesão enviado pelo rei de Tiro a Salomão, Hiram Abife tornou-se, na lenda maçônica, uma das figuras mais ricas em simbolismo.
A Lenda de Hiram, encenada no ritual do grau de Mestre Maçom, narra como o Grande Arquiteto foi assassinado por três de seus companheiros que tentavam, pela força, arrancar-lhe os segredos dos Mestres. Hiram morreu sem revelar o que sabia — e com ele foi perdida a Palavra do Mestre.
Essa lenda, independentemente de sua historicidade, é um ensinamento moral de extraordinária profundidade: há valores que não podem ser transmitidos por coerção; há sabedorias que só podem ser conquistadas pelo mérito e pelo trabalho genuíno. A fidelidade de Hiram ao seu compromisso, mesmo diante da morte, é apresentada como o modelo supremo da virtude maçônica.
As Três Colunas do Templo
O Templo de Salomão é, na tradição maçônica, sustentado por três pilares fundamentais — também chamados de colunas —, que representam os princípios essenciais da Ordem:
- Sabedoria (Sapiência): associada ao rei Salomão, que planejou o Templo. A sabedoria é o princípio organizador, a inteligência que concebe e dirige. Na Loja, é representada pelo Venerável Mestre, que conduz os trabalhos com discernimento.
- Força (Robustez): associada ao rei Hirão de Tiro, que forneceu os materiais e os trabalhadores. A força é o poder executor que torna possível a realização do projeto. Na Loja, corresponde ao Primeiro Vigilante, que sustenta os trabalhos.
- Beleza (Harmonia): associada ao próprio Hiram Abife, o arquiteto que deu forma e graça ao Templo. A beleza é a harmonia que torna a obra perfeita e duradoura. Na Loja, é o atributo do Segundo Vigilante, que adorna os trabalhos.
Esses três princípios — Sabedoria, Força e Beleza — são considerados pela tradição maçônica os fundamentos de toda grande construção, seja ela um edifício, uma instituição ou um caráter humano.
As Duas Colunas: Jaquim e Boaz
À entrada do Templo de Salomão, segundo a narrativa bíblica, erguiam-se duas grandes colunas de bronze: Jaquim (à direita) e Boaz (à esquerda). Seus nomes, em hebraico, significam respectivamente “Ele estabelece” e “Nele está a força” — afirmações da solidez e da permanência da obra divina.
Na simbologia maçônica, essas duas colunas representam a dualidade fundamental da existência: passivo e ativo, receptivo e criativo, lunar e solar. Juntas, elas formam um portal — a passagem entre o mundo profano e o sagrado, entre a ignorância e o conhecimento, entre o que o iniciado era e o que está sendo chamado a ser.
O Templo Interior
Mas o maior ensinamento do simbolismo do Templo de Salomão na Maçonaria não é arquitetônico — é espiritual. O Templo não está em Jerusalém nem nas paredes de nenhuma loja. O verdadeiro Templo que o maçom é chamado a construir é interior.
Cada pedra desse Templo invisível é uma virtude cultivada, um preconceito superado, um ato de generosidade praticado, uma verdade contemplada. A jornada pelos graus maçônicos é, nesse sentido, uma obra de arquitetura espiritual — a construção gradual, paciente e dedicada de um ser humano mais pleno.
Como afirmava a máxima atribuída aos antigos construtores: “O Templo que Salomão construiu em sete anos, o maçom constrói em toda uma vida”.
O Templo de Salomão na Wikipedia apresenta informações históricas e arqueológicas sobre essa construção que tão profundamente inspirou a tradição maçônica.
Conclusão
O Templo de Salomão é, para a Maçonaria, muito mais do que uma referência histórica ou bíblica. É a grande metáfora de tudo que a Ordem aspira a ser: uma construção de sabedoria, força e beleza, erguida por mãos habilidosas e corações íntegros, em honra ao Grande Arquiteto do Universo.
Compreender o Templo é compreender a Maçonaria em sua essência mais profunda: não como uma organização que guarda segredos, mas como uma tradição que cultiva a arte suprema — a arte de construir o ser humano.
Leia também
Templo de Salomão: para aprofundar
Este assunto dialoga com outros pilares da simbologia maçônica, como o que é a Maçonaria e as Colunas na Maçonaria.
