Em 28 de abril de 1738, apenas 21 anos depois da fundação da primeira Grande Loja, o papa Clemente XII publicou a constituição apostólica In Eminenti, a primeira condenação oficial da Maçonaria pela Igreja Católica. O documento proibia aos fiéis, sob pena de excomunhão, ingressar nas Lojas ou favorecê-las de qualquer forma. Foi o início de uma relação tensa que atravessou quase três séculos e que ainda gera perguntas a todo Aprendiz vindo de família católica.
Este artigo apresenta o contexto da bula, o que ela dizia, por que foi escrita, o que aconteceu depois e como a questão se apresenta hoje.
O contexto de 1738
Na década de 1730 a Maçonaria se espalhava rapidamente pela Europa católica: França, Itália, Espanha, Portugal. Em Florença, uma Loja fundada por ingleses reunia nobres, artistas e cientistas, e a Inquisição toscana já a investigava. Em Roma, a corte pontifícia via com desconfiança uma sociedade que reunia homens de religiões diferentes, sob juramento, em reuniões fechadas. Para uma Igreja habituada a controlar a vida associativa, aquilo parecia uma ameaça.
O que a In Eminenti dizia
A bula é curta e direta. Seus argumentos centrais são três:
- A mistura de religiões: as Lojas admitem “homens de qualquer religião ou seita”, contentando-se com “uma aparência de honestidade natural”, o que a Igreja considerava indiferentismo religioso.
- O juramento de sigilo: os membros juram guardar segredo do que fazem, e a Igreja entendia que quem nada faz de errado não precisa esconder-se.
- A suspeita de heresia: reuniões secretas de homens de crenças diversas eram presumidas contrárias à fé e à ordem pública, “pois, se não fizessem o mal, não odiariam tanto a luz”.
A pena era a excomunhão automática, reservada ao papa, para quem entrasse nas Lojas, as protegesse ou as frequentasse. A bula também pedia aos bispos e inquisidores que procedessem contra os suspeitos.
As consequências
Na prática, a In Eminenti só teve força onde o poder civil a acolheu. Na França, o Parlamento de Paris recusou-se a registrá-la, e as Lojas continuaram. Em Portugal, pelo contrário, a Inquisição prendeu maçons; o caso mais famoso é o do ourives suíço John Coustos, torturado em Lisboa em 1743, cujo relato correu a Europa. Nos Estados Pontifícios e em partes da Itália e da Espanha houve prisões e processos. Em 1751, Bento XIV renovou a condenação com a bula Providas Romanorum, e os papas seguintes a repetiram por dois séculos.
A tolerância que a bula não entendeu
O ponto mais atacado pela In Eminenti, a admissão de homens de religiões diferentes, era justamente o que as Constituições de Anderson tinham fixado como princípio quinze anos antes: a “religião em que todos os homens concordam”. Onde Roma via indiferentismo, a Ordem via tolerância. Essa diferença de leitura está na raiz de todo o conflito, e é discutida em Maçonaria e religião.
E hoje?
O Código de Direito Canônico de 1983 deixou de mencionar a Maçonaria pelo nome, o que gerou dúvidas. Em novembro do mesmo ano, a Congregação para a Doutrina da Fé esclareceu que o juízo negativo permanecia e que o católico inscrito em associações maçônicas está em pecado grave. Em 2023 a Santa Sé reafirmou essa posição. Ou seja: a excomunhão automática de 1738 já não existe como tal, mas a incompatibilidade continua sendo a posição oficial da Igreja. Muitos católicos, ainda assim, são maçons, e muitas Lojas contam com padres e religiosos em sua história. É uma questão de consciência que cada candidato deve avaliar com honestidade.
Por que isso importa para o Aprendiz e o Companheiro
A pergunta “a Igreja proíbe?” chega a quase todo candidato, e a resposta honesta começa pela In Eminenti. Conhecer a bula ensina que o conflito não nasceu de segredos sombrios, mas de uma disputa sobre tolerância religiosa e autoridade. O Aprendiz que entende isso responde à família com serenidade, sem negar a história nem exagerá-la.
Perguntas frequentes
O que é a bula In Eminenti? A In Eminenti é a constituição apostólica de Clemente XII, de 28 de abril de 1738, que condenou a Maçonaria e proibiu aos católicos ingressar nas Lojas, sob pena de excomunhão. Foi a primeira condenação papal da Ordem.
Por que o papa condenou a Maçonaria em 1738? Pela admissão de homens de religiões diferentes, pelo juramento de sigilo e pela suspeita de que reuniões secretas fossem contrárias à fé e à ordem pública.
A Igreja Católica ainda proíbe a Maçonaria? A excomunhão automática de 1738 não consta do Código de 1983, mas a Congregação para a Doutrina da Fé declarou em 1983, e a Santa Sé reafirmou em 2023, que a filiação maçônica continua incompatível com a doutrina católica.
Conclusão
A In Eminenti abriu um capítulo que ainda não se fechou. Lida com calma, mostra que a Maçonaria foi condenada precisamente por aquilo que a define: reunir homens de fés diferentes em torno de uma ética comum. Para o Aprendiz e o Companheiro, é uma lição de história e de serenidade. Outros documentos e datas estão no Dicionário Maçônico.
Referências bibliográficas
- CLEMENTE XII. In Eminenti Apostolatus Specula. Roma, 28 de abril de 1738.
- COUSTOS, John. The Sufferings of John Coustos for Free-Masonry. Londres, 1746.
- CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre as associações maçônicas. 26 de novembro de 1983.
- MACKEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria.
Fonte de referência histórica: Maçonaria (Wikipédia).
