Por Luis Carlos Lenz (CIM/GOSC-2704)
A∴R∴B∴L∴S∴ Fraternidade, Justiça e Trabalho, nº 26 — Balneário Camboriú/SC; também filiado e ativo na A∴R∴L∴S∴ Pedra Cintilante, nº 60 — GOSC/Itapema-SC.
13 de junho de 2026
Resumo: O presente artigo analisa a natureza da identidade humana sob duas vertentes principais: a perspectiva biológica/psicológica e a abordagem filosófico-esotérica. Questiona-se o conceito tradicional de um “eu” estático e imutável, contrapondo-o aos achados contemporâneos da neurociência acerca do conectoma e do fluxo contínuo das conexões sinápticas que moldam as memórias e a narrativa pessoal.
Discute-se o papel das emoções através de analogias e os diferentes níveis e tipos de consciência (psicológica e ético-moral). Conclui-se que o autoconhecimento e o redirecionamento do foco individual para as relações coletivas constituem a base para a construção de um ambiente social ético, livre e justo.
Palavras-chave: Identidade. Autoconhecimento. Conectoma. Consciência. Maçonaria
Introdução
Existe um real eu? Como o encontramos? Muito em nossa cultura reforça a ideia de que há um núcleo, um “eu” que vivencia as experiências, cercado por memórias, desejos, conhecimento, crenças e sensações. Uma essência a ser descoberta, que é permanente e imutável e que nos define. Isto pode ser questionado? (01,06)
Entender melhor este assunto lança uma melhor compreensão sobre nossa ação e impacto no mundo. “Ajustar este foco” traz duas consequências 1º. Esta ação será mais consciente e, como consequência, mais eficiente. 2º. Isto nos tornará pessoas mais felizes, assim como aqueles que estarão dentro da área de abrangência de nossa ação. (01)
Desenvolvimento
Quem sou eu?… Depende
Uma “1ª. Visão” defende que a identidade depende dos nossos genes. Somos arrojados ou conservadores, amáveis ou irascíveis, desligados ou concentrados em decorrência da nossa carga genética. Fatores ambientais cruciais também moldam essa arquitetura; por exemplo, a incidência de luz e calor do sol em uma data específica influencia a biologia dos nascidos naquele dia. Somam-se a isso a hora do nascimento, medicamentos, doenças e a alimentação dos pais à época. Esse conjunto individualiza o impacto na configuração genética de cada um, somando-se às emoções do momento (alegria, tristeza, raiva, medo), localização geográfica, profissão e crenças pessoais. (Isto é compreensível) (01) Esta visão é explorada pela PENSAMENTO PSICOLÓGICO-BIOLÓGICO.
A “2ª. Visão” enxerga a identidade como um processo de “aprendizagem e amadurecimento” pelo qual a consciência — entendida aqui como uma entidade já pronta — está passando. (Isto encanta) (01) Esta visão é explorada pelo PENSAMENTO FILOSÓFICO-ESOTÉRICO.
A “3ª. Visão”(?), o conectoma e a neurociência.
Pensamento Filosófico-Esotérico
(Quem está julgando, desejando, escolhendo?)
Sócrates: Fundamenta a filosofia no aforismo “Conhece-te a ti mesmo”, inscrito no Oráculo de Delfos (mitologia grega) como um chamado universal. Da mesma forma, alegorias como o Mito da Caverna de Platão (e releituras modernas como o filme Matrix) exploram o autoconhecimento como o único caminho para a libertação e para a tomada de decisões autônomas. (08;09)
Buda: Postula que o ser humano é intrinsecamente insatisfeito. Essa insatisfação/ansiedade (dor) decorre diretamente do desejo incessante e do erro de perspectiva: por não sabermos quem realmente somos, movemo-nos erraticamente atrás da felicidade, ora buscando-a no material, ora no espiritual ou mental. Essa inconsciência de quem deseja gera o sofrimento que se torna a “água da sopa das nossas vidas”. (02;03)
Constituição Setenária: A Constituição Setenária do homem, também conhecida como Os Sete Princípios do Homem, são estágios de consciência, os veículos da manifestação humana. Constituída por uma Tríade Superior (mente pura, intuição e vontade) e um Quaternário Inferior (corpo físico, energético, emocional e mente dos desejos). São ligados por uma ponte (Antakarana) que simboliza a consciência. (03)
Pensamento Psicológico-Biológico
A ciência contemporânea desconstrói a ideia de uma essência estática através de novos modelos cognitivos:
Emoções e sua dinâmica: Narrativas modernas (como a animação Divertidamente) ilustram como as emoções centrais (alegria, medo, raiva, tristeza e tédio/nojinho) controlam nossas decisões. Demonstra-se que até as emoções tidas como “ruins” possuem lados positivos (como a raiva impulsionando reações contra injustiças). A consciência é o elemento chave (“acordar a Riley”) para que as estruturas do pensamento operem adequadamente. Como sintetiza Yuval Noah Harari, somos uma narrativa complexa produzida pelos conflitos e colaboração de todos os personagens bioquímicos juntos. (04)
Consciência: Os níveis, tipos e aspectos constituintes
1. Níveis: Consciência “Passiva” (vaga noção pessoal e periférica); “Vívida” (afetiva, não-reflexiva), “Ativa” (reflexiva-intencional, onde há o conhecimento de si e o conhecimento sobre o próprio conhecimento).
2. Tipos: A “Consciência Psicológica” onde o EU-identidade é percebido através de um o fluxo temporal de vivências mantido pela memória, atenção e imaginação. Há também a “Consciência Ético-moral” (onde o indivíduo se percebe livre e racional para deliberar, agir, respeitar direitos e cumprir deveres). Convive e opõe-se sem prejuízo da convivência. (05)
Genes e influências sofridas desde o momento da concepção (luz, calor, alimentos, etc.). (01)
Pensamento Neurocientífico Moderno
A neurociência substitui o conceito de “núcleo da alma” pelo conceito de CONECTOMA: a imensa rede de integração dos nossos 100 bilhões de neurônios e seus trilhões de sinapses.
Esse fluxo formidável de informações (sensitivas, motoras e cognitivas) e suas relações que se sobrepõem e se interligam de diversas formas (com uma história, uma narrativa sobre nós mesmos) é armazenado na forma de memórias, em um processo que constitui o que chamamos de “Nós”. Fazemos e desejamos coisas porque LEMBRAMOS coisas, porque acreditamos em coisas e porque sabemos de coisas. (01;06;10;11;12)
O conectoma: a memória e o “eu” que muda.
O armazenamento das memórias não ocorre em um ponto físico estático (um “baú”), mas sim nas próprias conexões e vesículas sinápticas. O processo do estímulo (input) transita pela memória consciente imediata (córtex pré-frontal), segue para o hipocampo (que atua como uma ferramenta construtora de conceitos e hierarquias) e retorna ao pré-frontal como memória de longo prazo. A amígdala acrescenta o tom emocional, enquanto o cerebelo e os gânglios basais registram os hábitos inconscientes (como andar de bicicleta). Então nossas memórias estão neste FLUXO DE CONEXÃO e aparentemente outros aspectos determinantes da nossa identidade como personalidade e intelecto.
Nossa identidade muda com o passar do tempo. O conectoma também muda com o tempo. Sinapses podem ser criadas ou eliminadas, tornadas maiores ou menores. O QUE CAUSA A MUDANÇA? Em 1º. Lugar, nossos genes. Em 2º. a “atividade neural” (a circulação dos sinais-informação entre os neurônios). Há evidência de que ela codifica pensamentos, sentimentos e percepção (nossas experiências mentais). A atividade neural é a base dos pensamentos e percepções. (01;10;11;12)
O conectoma (eu?) e a relação das coisas.
Não mais como um objeto que tem as experiências, mas como a coleção das experiências da vida: A SOMA DAS PARTES. O conectoma muda continuamente com o tempo através da atividade neural, o que significa que nossas experiências mudam as nossas conexões físicas. Não somos um objeto estático que possui experiências; nós somos a própria coleção e relação dessas experiências estruturadas em forma de narrativa. (01)
Se transplantar as memórias ou as crenças ainda seremos a mesma pessoa? Se não há uma “água” cercada de O e H2 que a constitui ou um “relógio” cercado de peças que o constitui. Por que o ser humano seria diferente? (06)
Considerações Finais: o desafio da identidade
A identidade humana não é um produto acabado para ser descoberto olhando para dentro da alma de forma mística; ela é um processo fluido, criativo e em constante movimento. Parte dela nós descobrimos através de nossa biologia, mas a maior parte nós criamos e moldamos ativamente.
O self (o “eu”) existe de forma complexa e organizada, tal qual o funcionamento mecânico de um relógio, onde a soma e a relação das partes dão sentido ao todo. (01,07)
Somos o resultado do biológico, do psicológico e do filosófico-esotérico e estar consciente de qual deles protagoniza no momento do tempo é o AUTO-CONHECIMENTO.
Compreender que esse processo fluídico de autoconstrução é idêntico para toda a humanidade é o alicerce fundamental para o estabelecer da paz individual e coletiva. Ao nos conscientizarmos de nossa pluralidade INTERNA E EXTERNA, libertamo-nos de influências tendenciosas e passamos a edificar um ambiente social verdadeiramente ético, livre e justo.
Bibliografia
- SEUNG, Sebastian. I am my connectome. TED Talk, 2010. Acesso em: 07 jun. 2026.
- COMPRA ZEN. Quem sou eu? Budismo, identidade e o vazio fundamental do Buda. Acesso em: 07 jun. 2026.
- KARATE SHOTOKAI. A Constituição Septenária do Homem.
- ANÁLISE DIVERTIDAMENTE | Observatório da Qualidade no Audiovisual. Acesso em: 07 jun. 2026.
- CHAUÍ, Marilena. O que é consciência? Epígrafes Históricas, 2013. Acesso em: 07 jun. 2026.
- BAGGINI, Julian. Is there a real you? TED Talks. Acesso em: 07 jun. 2026.
- IDENTIDADE: adquirida ou criada? Canal do YouTube. Acesso em: 07 jun. 2026.
- TODA MATÉRIA. Sócrates. Acesso em: 07 jun. 2026.
- TODA MATÉRIA. Conhece-te a ti mesmo. Acesso em: 07 jun. 2026.
- PORTAL EDUCAÇÃO. Que estruturas cerebrais estão envolvidas nos mecanismos de memória? Acesso em: 07 jun. 2026.
- MUNDO EDUCAÇÃO (UOL). A Biologia da Memória. Acesso em: 07 jun. 2026.
- KENHUB. Anatomia do Córtex Cerebral. Acesso em: 07 jun. 2026.
